Sempre gostei de ler e escrever, mas confesso que desenho nunca foi o meu forte e muito me incomodava, no antigo primário, a insistência da professora para que eu desenhasse. Para satisfazê-la rendi-me, mas encontrei outro problema, o quê desenhar? Percebi que as outras crianças faziam basicamente a mesma coisa: uma paisagem composta por casa, árvores, flores, sol, passarinhos, etc.
Meu desenho número 1 foi uma casa simples, de linhas retas, que copiei de alguém. Possuía uma única porta fechada, arredondada na parte de cima, com uma maçaneta. Acima um pequeno sol completava a paisagem.
Sempre muito observadora notei que minha ‘adorável’ professora recebia a visita de outra professora, na própria sala de aula, para discutirem sobre o processo de análise da realidade familiar e da personalidade da criança através de seu desenho.
Um desenho triste, sombrio, com predominância de cores escuras, denotaria uma criança triste, com uma estrutura familiar problemática; em contrapartida, um desenho colorido e alegre denotaria uma criança bem resolvida e feliz. Seria possível diagnosticar um processo de violência ou abuso familiar, distúrbios sociais e até mesmo psíquicos através da simples observação. Usavam os alunos como exemplos e eu não fugia à regra.
Deve haver alguma explicação freudiana para a mania que alguns espécimes adultos têm de ignorar a capacidade cognitiva infantil ao falar sobre a criança em sua presença como se ela ali não estivesse, ou pior, não se desse conta de que estão falando dela.
Descobri assim que o meu desenho era triste, porque a casa não tinha janelas e a porta estava fechada. Comentaram ainda sobre outra aluna e percebi que só a janela não bastava, precisava de cortinas e de um vasinho de flores que representasse a felicidade familiar. A cortina também deveria estar aberta, pois fechada era preocupante. Além disso, um desenho verdadeiramente interessante deveria apresentar outros elementos além de um sol e uma casa.
Decidi então mudar o meu desenho. Na casa coloquei uma janela com cortinas abertas e um vaso de flores, uma árvore grande, o sol e muitas nuvens, a porta deixei fechada, pois não sabia como desenhá-la aberta. Tive ainda o cuidado de colocar folhas nas flores. Sabe-se lá.
As incansável e insensível profissional do ensino continuou falando com a amiga, a respeito dos alunos e analisando os desenhos em sala de aula. Eu agora mantinha os meus ouvidos mais apurados. Ouvi dizer que meu desenho não tinha bases sólidas, pois não possuía chão; a árvore era vazia, sem frutos, e não havia elementos vivos como pessoas ou animais. "Com certeza a aluna deve ter sérios problemas familiares", ouvi dizerem.
Na verdade eu detestava mesmo desenhar e perder o tempo precioso em que poderia estar inventando as minhas histórias. O pior era ter de ser comparada a outros exímios desenhistas da turma, eu e meu desenho tosco, sempre o mesmo.
Mas por que não me mandavam fazer uma redação? Por que nunca me pediram para ler o que escrevia? Meu caderno de versos, minhas pequenas histórias, os livros que fazia com quadradinhos de papéis grampeados? Não! Tinham que analisar o maldito desenho. Que fosse, então! Observei os outros, os ‘queridinhos’ da turma, e copiei algo de cada um.
Na casa coloquei um número três, gostava deste número. Coloquei o tal chão, fiz um menino e uma menina sorridentes, um caracol e uma tartaruga, os únicos animais que sabia desenhar, além de um rato que minha mãe havia me ensinado, mas achei que não iam gostar de ver um rato no meu desenho.
No céu, além das nuvens, acrescentei umas gaivotas, com isso o sol ficou espremido e tive que movê-lo para a quina da folha; já tinha visto alguém fazer isso, e acrescentei a ele olhos e boca. Sorridente, é claro. A professora dizia que sol não tem nariz e riu quando na primeira vez coloquei um. Tirei o nariz, só não entendi como um sol que não tem nariz pode ter olhos e boca, como as outras meninas faziam.
Coloquei maçãs vermelhas na árvore e fiquei chateada quando a vi contando as frutas, não tinha ouvido nada sobre isso. Será que tinha feito poucas ou muitas? Nunca descobri. Desenhei ainda algumas flores, mas nada disso parecia ser o suficiente, por mais que eu tentasse, por mais que eu copiasse, meu desenho sempre foi o pior da turma e jamais recebi um único elogio.
Com o passar do tempo fui aprimorando o meu desenho. Acrescentei umas pedras, gramas, matinhos. Coloquei telhas na casa e cheguei à conclusão de que cinco maçãs seriam razoáveis.
Após ter ouvido que uma menina era equilibrada porque fazia um caminho até a casa, que um caminho significava que ela tinha um bom relacionamento no lar e por isso gostava de voltar para lá; eu, que também queria ser equilibrada, passei a desenhar desta forma.
Meu desenho número 1/9875 ficou assim:
Desta forma continuei a desenhar por todo o curso primário. E se não recebi elogios também não fui mais criticada. Foi então desta forma que ainda em minha tenra infância destruíram qualquer possibilidade de criação artística de minha parte, ao menos no que diz respeito ao desenho e às artes plásticas.
Mas, felizmente, não quiseram ler minhas histórias, não me pediram para fazer redações e nunca viram meus versos. Assim pude desenvolver-me naturalmente na arte de escrever, entre erros e acertos, é verdade, mas por mim mesma. E totalmente de posse de meu próprio processo criativo.
Por Flávia Côrtes
Flavia, adorei! To repassando até pra Simone, pedagoga. :)
ResponderExcluirbjs
...e o pior é que,até hoje, continuam fazendo isso com nossas crianças.
ResponderExcluirPS: coincidência - o design do seu blog é igual ao meu: aragaoescritor.blogspot.com
Você já sabe que sou super fã desta história... ainda vamos fazer um curta de animação com ela... que tal???
ResponderExcluirÉ porque temos bom gosto, José Carlos! ;)
ResponderExcluirBeijos
Bora Thaís? ;)
ResponderExcluirAdoreeeei este texto!!!
ResponderExcluirÉ divertido e verdadeiro! As professoras faziam exatamente assim e infelizmente não acreditam ou ignoram o fato de que a criança ouve e entende, rs... parabéns!
Adorei, Flávia! Bom demais. Beijo.
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